O que é (e o que não é) um departamento de performance emocional no futebol
O termo começa a circular nos clubes portugueses e, como acontece com tudo o que fica na moda, circula cheio de equívocos. Vale a pena arrumar as ideias, porque a diferença entre a versão a sério e a versão de fachada mede-se em pontos e em milhões.
O que não é
Não é uma palestra motivacional na pré-época. O plantel ouve, aplaude, e na semana seguinte está tudo igual: inspiração sem ferramentas e sem continuidade não muda comportamento.
Não é um psicólogo fechado num gabinete à espera que os jogadores marquem consulta. Os que mais precisam nunca marcam: no futebol, ir "ao psicólogo" ainda carrega estigma, e o rendimento perde-se no balneário e no relvado, não no gabinete.
Não é um "guru" com frases feitas nem um amigo do presidente que dá conselhos. E não é, sobretudo, um luxo de clube grande: os clubes com menos orçamento são precisamente os que menos podem dar-se ao luxo de falhar contratações e desperdiçar ativos.
O que é
Uma estrutura profissional, integrada na rotina competitiva, que atua em quatro frentes ao mesmo tempo. Nos atletas: gestão da pressão, apoio nos momentos críticos, integração de reforços e jovens. Na equipa técnica: informação comportamental sobre cada jogador, para que o treinador comunique e lidere à medida de cada perfil. No trabalho individual: intervenção personalizada e confidencial com quem mais precisa ou mais vale. E no conhecimento sistematizado do plantel: perfis psicoemocionais que informam o recrutamento e a gestão diária, com uma metodologia consistente e acompanhamento da evolução ao longo da época.
A versão a sério não é alguém que aparece quando há um problema. É uma estrutura que trabalha para o problema não aparecer.
A diferença prática é fácil de reconhecer: a versão de fachada produz relatórios que ninguém lê; a versão a sério muda a forma como o treinador conversa com o jogador na terça-feira. Uma vive fora do contexto competitivo; a outra vive dentro dele, ao ritmo da semana de jogo.
Quanto custa não ter
Façamos as contas que nenhum relatório de jogo faz. Uma contratação falhada (o reforço com talento comprovado que nunca se adaptou) custa a um clube português médio centenas de milhares de euros entre salários, comissões e valor de mercado perdido; nos casos maiores, milhões. Uma quebra de rendimento coletiva de dois meses custa pontos que, no fim da época, separam a manutenção da descida, e a descida custa milhões em receitas. Um balneário que implode custa quase sempre um treinador despedido, com as indemnizações e o reinício do projeto que isso implica. E um jovem talento que não confirma é valor de venda que evapora.
Qualquer uma destas perdas, sozinha, custa mais do que anos de um departamento de performance emocional profissional. O clube que não tem esta estrutura não está a poupar: está a pagar o preço mais caro possível, em prestações invisíveis, todos os meses.
A pergunta certa
A pergunta não é "quanto custa um departamento de performance emocional?". É a inversa: quanto está o clube a perder, esta época, por não ter um departamento profissional e competente? Nos oito clubes profissionais por onde passámos, a resposta viu-se sempre no mesmo sítio: no rendimento dos atletas, na estabilidade do balneário e na classificação.
Quanto custa ao seu clube não ter este departamento?
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