Opinião · Psicologia no Desporto

O que faz um psicólogo desportivo no futebol e porque quase nenhum clube tem um

Os clubes portugueses medem tudo: quilómetros percorridos, carga de treino, mapas de calor. Mas a variável que mais decide jogos continua sem dono dentro da estrutura: a cabeça do jogador.

Quando se fala de psicologia no desporto, a maioria das pessoas imagina um consultório: um sofá, um atleta com problemas, conversas longe do relvado. É uma imagem errada, e é uma das razões pelas quais o futebol português continua atrasado nesta área.

O trabalho psicológico e emocional no futebol profissional não acontece num gabinete. Acontece no contexto competitivo: no treino de terça-feira depois de uma derrota ao domingo, na conversa com o reforço que ainda não marcou, na leitura do balneário na semana de um dérbi. É trabalho de terreno, com o ritmo da semana competitiva.

O que faz, na prática, um profissional de performance emocional

No dia a dia de um clube, este trabalho tem quatro frentes. Primeiro, o acompanhamento dos atletas: gestão da pressão, recuperação após erro, apoio em lesões longas e integração de reforços e jovens. Segundo, o suporte à equipa técnica: dar ao treinador informação comportamental sobre cada jogador, para que cada conversa individual seja feita com conhecimento e não com intuição. Terceiro, o trabalho individual e confidencial com os atletas que mais precisam ou que mais valem. Quarto, o conhecimento sistematizado do plantel: perfis psicoemocionais que ajudam nas decisões de recrutamento e na gestão diária do grupo.

O jogador de futebol vive com medo: de errar, da crítica, de não ser capaz. A maioria das pessoas não tem noção disso.

Digo-o com conhecimento de causa. Fui jogador profissional, cheguei à I Liga pelo Leixões e vi a carreira terminar aos 23 anos por lesão. Passei pela queda, pela depressão e pela reconstrução. É por ter estado dos dois lados que sei que este trabalho não é um luxo. É a diferença entre o talento que confirma e o talento que se perde.

Porque é que os clubes ainda não investem

Por três razões. Primeira: o custo desta área não aparece em nenhum relatório. Uma contratação falhada aparece no orçamento como "azar de mercado", nunca como "ninguém avaliou o perfil emocional do jogador". Segunda: muitos dirigentes ainda associam o tema a fraqueza, quando os melhores clubes europeus (Brentford, Brighton, Midtjylland) já integraram avaliações comportamentais no recrutamento e na gestão diária. Terceira: falta de oferta estruturada. Um psicólogo isolado, sem integração com a equipa técnica, produz relatórios que ninguém usa.

A solução não é contratar uma pessoa para um gabinete. É construir um departamento de performance emocional que funcione dentro da rotina competitiva, com uma linguagem que o treinador use, como explicamos aos clubes com quem trabalhamos.

O que muda quando um clube aposta a sério

Em oito clubes profissionais portugueses, vimos o mesmo padrão repetir-se: reforços que se adaptam mais depressa, jovens que aguentam a subida à equipa principal, balneários que não implodem nos momentos de pressão, treinadores que comunicam de forma diferente com jogadores diferentes. Nada disto aparece no relatório de jogo. Tudo isto aparece na classificação no fim da época.

O seu clube gere o físico e a tática ao milímetro. E o lado emocional?

Trabalhamos com clubes, treinadores e atletas em todo o país.

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